O NOME DO HOMEM MORTO
 

– COMO DEVEMOS CHAMAR ESSE HOMEM SEM NOME, agora morto? – o enfermeiro quis saber de Luís, mas ele ficou em silêncio, olhava para o homem quase nu, magro e envelhecido do nada, que chegou sorrindo e fazia piada com a equipe. Dizia que enfim viveria debaixo de um lugar, mas quando se quis saber de seu nome, falou que nome não tinha: soube por alto que no começo havia vários nomes e, depois de um tempo, não tinha nome, nem pai, nem mãe.
   – Sem nome não é. Todo mundo tem nome – disse Luís, daquele jeito que as pessoas costumam dizer as coisas, com ar de critério, para parecerem saber mais e de tudo. – Deve ter um jeito de saber.
   – Não tem – rebateu o enfermeiro. – Ele chegou por conta própria, disse morar na rua, em qualquer rua. Nem sabia que era documento. Quando perguntaram por seu RG, disse sorrindo: quê? Se tinha nome, foi com ele. Não vai ser caso, não agora, de ir às ruas para descobrir quem conhecia o homem sem nome.
   – Até amanhã, antes de tirarem o corpo daqui, damos um nome para o homem sem nome – concluiu Luís, se despedindo.
   Horas depois do plantão, em casa, Luís ainda estava com aquele apanhado de frases breves que insistia se manter em suas lembranças e ele detestava levar qualquer coisa que fosse do trabalho para casa. Tinha qualquer coisa no trabalho que não combinava com vida feliz. Quando entrava no carro, o trabalho ficava para trás. 
   Do hospital até o apartamento, Luís se lembrou do homem sem nome. De ter visto que ele estava indo embora, se desfigurando, sozinho. O homem sem nome foi silenciando, perdia peso, passou para as máquinas e não saiu mais. Poucos entraram na máquina para saírem. Como uma das pessoas na frente de cuidados para tratar aqueles alcançados pelo vírus, Luís podia dizer isso.
   Dentro do carro, em silêncio, nenhuma música, nem notícia. Olhava as ruas vazias e as calçadas desertas. A cidade ficava feia sem gente de um lado para outro, sabe-se lá de onde vinha e para onde estava indo, mas era bom quando via as pessoas andando do lado de fora, visíveis. 
   Por telefone, falava com o amigo médico que trabalhava em um hospital particular e costumava dizer que ele prestasse atenção para o vírus não vencer seus cuidados e resistência. “Seria uma vergonha, um descaso”, ouvia Luís. “A maioria – seguia o amigo – está apenas chutando opinião com o tanto que sabe de outras epidemias notificadas e acompanhadas, parecidas. Não vacila.”
   Luís estava muito próximo dos infectados. Não vacilar que significava? O pessoal de enfermagem se contaminava com facilidade, não por descuido, nem descaso. Até então nenhum médico. E tinha aquela residente, Alba com sobrenome italiano, que não parava de refazer convites para ele ir em seu apartamento. 
   – Um vinho, umas músicas. E o que quiser – ela debochava de seus recuos, mas a proposta parecia boa, dava para sentir que seria agradável. 
   Sabia que ela estava levando mais de um daqueles com nome e sobrenome do hospital para boas noitadas em sua casa. Via que ela costumava fumar sem máscara do lado de fora, na sacada aberta, junto com outras pessoas desconhecidas. Alba, sabe-se lá que nome a mais tem ou por que deveria ter, sumia tantas vezes, de perder as contas, durante o plantão. Percebia que ela chegava com olhos profundos e cansados, talvez provas de que não vinha dormindo tanto quanto seria necessário para ter mais atenção. Era relapsa com os protocolos, talvez porque há na juventude essa ideia de que a morte é um detalhe comum aos velhos. Luís aprendeu a ser atento, seguir os protocolos. 
   – Um dia, quem sabe, um dia – Luís ria e Alba achava curioso que ele não pulasse sobressaltado e excitado, nem anunciasse sua tigritude. “Alba das quantas o quê mesmo?”, pensava e, por não se lembrar do nome, a mente não o enganava: ela não tinha nada a ver com ele, mas se vinha naquele instante em que a imagem do homem sem nome morto pedia sua atenção, valeria duvidar que sua mente, às vezes, sugere uns tipos mais arrumados e se engana.
   Antes de dormir, tornou a relembrar o homem sem nome e, então, um pouco mais adiante, ele deu as caras em um de seus sonhos daquela noite. Luís dormia fácil, ao contrário do que sempre diziam seus colegas médicos e enfermeiros. Não tomava remédio para nada, diferente dos demais colegas, acostumados a pegar um mal-estar ou qualquer dor e tentar domar com medicamentos. Dormia fácil e sonhava, e, talvez por dormir fácil, sonhava, e se lembrava dos sonhos. “Que importa qual meu nome, doutor”, disse o homem sem nome em um dos sonhos. “Eu já era. Fui.”’
      – Qual nome foi dado a ele na hora da internação? – despertou tarde da noite e quis saber, por telefone.
   – Nenhum. Insistiu que não tinha nome, que não se deu nenhum nome, ninguém o chamava por nome nenhum, e assim ficou “homem sem nome, paciente não identificado” – disse a enfermeira de plantão. – Nesta situação, pela excepcionalidade de estarmos em uma pandemia, ninguém se importou que ele chegasse, entrasse e ficasse sem endereço, RG, sem nome.
   Luís tinha um nome inconfesso: Jorge. Quase fora Jorge. Na verdade, durante a gravidez de sua mãe seu nome era Jorge. Mas seu pai, que foi sozinho ao cartório, voltou com esse nome, Luís, de última hora inventado, sem elo com familiares ou amigos, e assim tem sido Luís por quase quarenta anos. 
   A mãe não ficou feliz com aquela estupidez e desrespeito. Se mostrou triste, porque começara ali, se não antes, as desautorizações e contratempos, a solidão e a falta de conversa. Antes de morrer, chamou Luís de Jorge e não foi por descuido. Luís entendeu que ela nunca esqueceu que queria que ele fosse Jorge até o último instante de vida. Seu pai morreu sem dizer nada, nem Luís, nem nenhum nome: fechou os olhos e partiu.
   Sempre que dizia seu nome, Luís, algo por dentro arranhava a alma, porque aquele corpo não era de Luís, era de Jorge. Luís era uma imposição sem sentido, porque nem mesmo o pai, durante a vida, se dirigia a Luís para chamar de Luís. 
  Uma confusão de nomes do passado disputavam a atenção de seu pai e de sua mãe, mas ela queria que fosse Jorge, porque sua família tinha vários homens com nome Jorge. E houve um deles que cantava e tinha boas piadas, pedia para as pessoas olharem a luz cheia e ficava feliz ao tomar banho de sol. De onde seu pai tirou Luís, não estava claro, até o fim.
    Luís, que tinha mais de um nome - um nome de cartório, parte do pai, um nome inconfidente, parte da mãe - era conhecido por um apelido: Dedeu. Toda questão ficou suspensa porque, na família, vingou o apelido. Exceto os colegas de faculdade e de trabalho, a família e aqueles crescidos com ele só sabem quem é Dedeu. E que Dedeu, em algum papel, se chama Luís.
   Vivia com tantos nomes e aquele homem, sozinho, agora morto, dissera ter vivido sem nome, sem registro qualquer que o fizesse identificado, parte da sociedade. Talvez nenhuma pessoa, em nenhum momento da vida, tenha se dirigido a ele para conversar ou para saber onde estava, para onde ir, como chegar a algum lugar. Nenhuma pessoa se aproximou do homem sem nome para conversar.
   Como passaria o dia em casa, teria de pensar rápido qual nome, e sobrenome, valeria para o homem sem nome. Em poucas horas seria levado para uma vala comum e se perderia para sempre nos registros como cadáver não identificado, sem mesmo ter a morte especificada. 
   Uma música tocava em sua lista no telefone celular enquanto tomava café da manhã em silêncio, olhando para a televisão muda da cozinha. “Antes que o dia arrebente, antes que o dia arrebente” – cantava Caetano Veloso –, “antes que a definitiva noite se espalhe em Latino américa, el nombre del nombre es pueblo.”
      – Pueblo Arrebente – falou Luís, pelo celular, uma frase só, forte, marcada pela mastigação calma.
      – Que é isso?  – perguntou a chefa de plantão.  – Antes de que mais, bom dia, doutor Luís.
      – O nome de homem morto: Pueblo Arrebente.
      – De onde tirou isso? Bem, não importa. Posso colocar qualquer nome, então, vai ser Pueblo Arrebente. Pueblo de Povo?
      – Isso, assim: Pueblo Arrebente.
 

**André Resende é psicanalista e escritor. Autor, entre outros, dos livros Zômis – em torno dos masculinos (ensaios de psicanálise), Uma coisa de cada vez (contos), Diasassados (romance), Penélope africana (romance).

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