Francisco, meu filho,

esta é a primeira carta que escrevo a você. E o assunto dela é a morte. Reconheço: uma escolha um tanto duvidosa logo neste momento em que você nos banha com a vida em chama plena, do alto de seus 8 meses e sete dentes. Mas é que morte e vida são parte da mesma faísca e mistério do qual somos feitos. Quando se apaga um lado, o outro também se esvai. E infelizmente a morte vem sendo desprezada nestes tempos estranhos de onde falo.

 

Não é fácil encarar a morte, assim como o sol de frente, já disseram. Pra resolver o problema, na nossa família criamos uma saída divertida: a encaramos através dos ouvidos. Abraçamos a música e, com dela, acessamos um caminho atemporal para colher lembranças e ensinamentos das gerações passadas e reforçar o que nos mantém unidos no presente. Uma hora a gente te conta sobre a Serenata dos Tiso, você vai gostar (quer dizer, na última vez em que lá estivemos você cantou conosco da barriga da sua mãe).

 

Mas neste 2020 a morte tem sido abandonada, viram-lhe as costas. Muita gente tem partido por aqui através deste vírus que torço pra ser apenas páginas da histórica agora que me lê. Muitas mesmo - mais de 120 mil só nos últimos seis meses. E a resposta ao medo e a incerteza sobre o que virá tem sido ignorá-las, mudar de assunto ou mesmo questionar e debochar de sua proximidade e enormidade. Até os símbolos e elementos mais próprios da morte, como os caixões e a dança fúnebre, têm sido alvo de um riso de deboche. Não aquele riso do carnaval, que tanto gostamos, que dá outros sentidos e questiona o poder, mas um escárnio que apaga a própria vida. Em outros países, a comoção, o luto, o reconhecimento de quem luta pela vida parece acontecer de forma diferente, marcando esse período como um grande e doloroso aprendizado. Por aqui tem faltado o básico: o respeito à morte. A despedida, a saudade e o reconhecimento do que se vai e do que fica é essencial neste percurso. Esquecimento e negação não ajudam a seguir em frente.

 

Tudo bem, minha primeira carta pra você não precisava falar de morte. Mas é que agora falar dela, dimensioná-la sem rodeios, mesmo que seja algo doloroso, é olhar a nós mesmos no espelho. E, pelo espelho da morte destratada, vemos claramente a vida que desejamos plena: lembramos que não estamos sozinhos no mundo, reconhecemos o sofrimento, as desigualdades e saudamos as vozes que queremos conosco, de todos os povos, num convívio respeitoso em que ninguém pode ficar pra trás.

 

Respeitar a morte é reverenciar a vida que esperamos desfrutar com você. Sempre que tentar encarar o sol e algo te incomodar, lembre que é ele mesmo que te aquece e tente ouvir o que esse astro que perpassa os tempos tem a nos dizer sobre vida e morte. Ouvir, contar e cantar as vozes que nos deixam é um bom caminho pra se aquecer sob esse mistério que nos une.

 

João Marcos Veiga

Brasil, setembro de 2020.

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