Colaboradores

José Bento Machado Ferreira é professor de Filosofia e pesquisador do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da Universidade de São Paulo

Morte súbita (Jaime Lauriano, 2014, reproduzido sob permissão do artista)

“Choram Marias e Clarisses

No solo do Brasil”

Aldir Blanc, 1979

 

     Produzido em 2014, o vídeo de Jaime Lauriano ganha novos sentidos e contribui para uma percepção da coincidência entre o colapso do sistema funerário decorrente da pandemia e a violência do discurso institucional de indiferença com os mortos do presente e do passado.

 

     Jaime Lauriano desloca o encobrimento do rosto na comemoração do gol para a formação hierática, rígida e solene da execução do hino. A cena não transcorre no espaço aberto dos estádios, mas no interior obscuro e indefinido do que parece ser uma espécie de prisão. Uma paisagem sonora é composta pela sobreposição do rumor uníssono da torcida, fogos de artifício, gritos, estampidos de bombas e disparos de armas de fogo. A montagem sonora mistura o alarido da torcida com o tumulto da repressão a manifestações políticas. Ao fundo, é possível ver vultos, marcas e inscrições na parede. Com isso, as imagens dos rostos encobertos por camisas associam-se às fotografias de presos rebelados. A imagem é ambígua porque eles não manteriam os rostos encobertos se fossem rendidos. A conduta policial normal é a exposição dos rostos dos presos. Porém, no período autoritário, era comum que o Estado não reconhecesse a custódia de presos políticos.

O desenho da camisa e o brasão pelo avesso identificam a versão utilizada em 1970 para o uniforme da seleção brasileira. A aparição instantânea do movimento explosivo de extravasamento emocional pela comemoração do gol entra em choque com o movimento linear, contínuo e repetitivo. A locução dos 22 nomes dura pouco mais de um minuto e meio:

Abelardo Rausch de Alcantâra, Alceri Maria Gomes da Silva, Ângelo Cardoso da Silva, Antônio Raymundo Lucena, Ary Abreu Lima da Rosa, Avelmar Moreira de Barros, Dorival Ferreira, Edson Neves Quaresma, Eduardo Collen Leite, Eiraldo de Palha Freira, Hélio Zanir Sanchotene Trindade, Joaquim Câmara Ferreira, Joelson Crispim, José Idésio Brianezi, José Roberto Spigner, Juarez Guimarães de Brito, Lucimar Brandão Guimarães, Marco Antônio da Silva Lima, Norberto Nehring, Olavo Hanssen, Roberto Macarini, Yoshitane Fujimori.[1]

     A câmera regressa quando chega ao final da formação e a fala recomeça depois do último nome. O movimento pendular da câmera, a postura rígida dos homens e a voz monótona e clara produzem uma espécie de efeito anestético, conforme Susan Buck-Morss: “a estética produz uma anestesia”. A “vida politicamente qualificada” da torcida, do jogo, da manifestação e dos corpos revelados pela posição da camisa encontra-se paralisada pelo looping temporal e pelo tom indiferente, quase alegre, com que os nomes dos mortos são anunciados. O vídeo de Jaime Lauriano descreve a condição da “vida nua” segundo Agamben, uma forma extrema de relação na qual o poder político produz a condição de matabilidade. Apesar da alta definição da imagem, que a situa na atualidade em comparação com os “filmetes” de O Brasil, o movimento pendular repetitivo e a sobreposição dos nomes dos mortos aos corpos sem rosto aponta no presente o que resta de 1970.

     A antropóloga Carolina Junqueira dos Santos demonstrou que as imagens são formas de lidar com a morte. O simbolismo do luto e a transmissão simbólica dos sentimentos ressurge nas novas tecnologias, ainda que elas estejam a serviço de forças interessadas na manipulação e no silenciamento desses sentimentos e no contexto de afastamento biopolítico da morte. A antropóloga demonstrou essa analogia entre imagem e morte ao estudar fotografias memoriais post mortem do final do século XIX e ao estudar a memória dos mortos em espaços coletivos. A estética dos antimonumentos desenvolve-se com Jochen Gerz e Horst Hoheisel a partir dos anos de 1980 por causa da necessidade de se repensar a representação da memória histórica depois da Segunda Guerra Mundial. Os antimonumentos evitam a exaltação nacionalista de figuras heróicas em favor da precariedade do luto e do testemunho. Ocorre nos antimonumentos um retorno a práticas funerárias pré-modernas das quais os monumentos tradicionais se afastam.

     O Santinho é um memorial virtual notável porque expõe “objetos biográficos” como a pulseira de Filomena Maria Coelho Pimentel (1955-1982), o cachimbo de Ed Azurem Fontes (1932-1981) e a máquina de costura de Julia Ferreira Neta da Silva (1957-2020). Os objetos biográficos “envelhecem conosco” e “nos dão a sensação pacífica de continuidade”. Ecléa Bosi considera-os opostos aos objetos que são “signos de status”, embora uns se convertam nos outros. O que os define são os “ambientes”, o “décor”, o cenário. Com a produção industrial, os lares e as vidas foram preenchidos por objetos descartáveis.

Segundo Godelier, a morte não é o oposto da vida, mas do nascimento. De acordo com o antropólogo, é “invariante” em meio às diversas religiosidades dos povos antigos e tradicionais que a morte seja a disjunção daquilo que se conjuga quando uma pessoa nasce. Somente para a sociedade moderna essa conjugação é entendida apenas biologicamente, de modo que a morte física não deixa resto. O que resta quando se dispersam os elementos constitutivos da pessoa, portanto todo o significado coletivo do que pode ser uma pessoa, trata-se do objeto dos comportamentos coletivos e individuais prescritos que chamamos de luto, na sua diversidade.

       A “substância memorativa” dos objetos biográficos, então, potencializa-se com a morte. Assim como todo retrato, toda imagem, possui um caráter funerário, todo objeto biográfico possui também um caráter icônico, pode ser empregado como imagem da ausência de uma pessoa. Nesse caso, o termo “pessoa” equivale ao nexo de intencionalidades em que se traduz seu papel social, seu lugar na comunidade, não apenas um corpo físico, uma informação ou um número.

     Aristóteles afirma que “o ser humano é um animal político” porque percebe a incompletude do indivíduo. Se, para o filósofo, o ser humano realiza-se na comunidade, conforme explica Francis Wolff, então a humanidade do ser humano reside nos vínculos e interações sociais que, embora invisíveis e impalpáveis, traduz-se nos ritos e mitos dos povos tradicionais e nos objetos que incorporam significados e intencionalidades, que chamamos de imagens ou obras de arte. Belting aponta para o caráter icônico do cadáver em todas as sociedade humanas. Se não o descartamos como uma coisa qualquer, mas o tornamos objeto de um comportamento coletivo ritualmente prescrito, então ele é a imagem da pessoa que se foi. Assim, onde quer que exista rito funerário, exista produção simbólica e a imagem como relação, como produção da comunidade que se reúne ao redor dela.

     A dificuldade da sociedade moderna em lidar com a morte está relacionada a uma captura do simbólico pelo discurso naturalista. Quando as instituições políticas produzem o ser humano como um ser abstrato, genérico e não um indivíduo real, a produção simbólica da comunidade perde o sentido. Uma perspectiva positivista exige que o progresso para a ordem científica abandone as ordens metafísica e mitológica, negando o valor das práticas tradicionais de luto coletivo. Esse posicionamento se expressa nas declarações públicas de indiferença à morte proferidas por autoridades políticas em meio à pandemia de Covid-19, quando se manifestaram o presidente da República Jair Bolsonaro e a secretária especial de Cultura Regina Duarte.

     Na entrevista ao jornalista Daniel Adjuto transmitida pelo canal de TV a cabo CNN Brasil, no dia 7 de maio de 2020, a estrela das telenovelas dos anos de 1980 e 90 e atual titular do órgão que sucedeu o Ministério da Cultura recusou-se a lamentar as mortes recentes de importantes nomes da cultura brasileira. A secretária foi interpelada sobre os músicos Moraes Moreia e Aldir Blanc, o escritor Rubem Fonseca e o também ator Flávio Migliaccio, então recentemente falecidos. Regina Duarte tentou justificar a ausência de homenagens públicas do órgão dirigido por ela referindo-se à trágica morte de Flávio Migliaccio como “esse óbito”. Afirmou não ter a intenção de “virar obituário”. Desqualificou as homenagens fúnebres para “ser construtivo e amar o país”.         Nesse momento, a secretária especial de Cultura entoa a canção Pra frente Brasil, que foi uma espécie de trilha sonora da transmissão ao vivo pela TV da Copa de 1970, ano em que se consolidou a repressão política institucionalizada pelo AI-5, sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Ao ser questionada sobre os mortos e desaparecidos políticos durante o regime militar, Regina Duarte proclamou:

     "Na humanidade não pára de morrer. Se você falar vida, do lado tem morte. Sempre houve tortura. Stalin, Hitler, quantas mortes? Não quero arrastar um cemitério de mortos nas minhas costas, não desejo isso para ninguém. Sou leve, estou viva, estamos vivos. [volta-se para a câmera] Vamos ficar vivos, por que olhar para trás? Não vive quem fica arrastando cordéis de caixões. Eu acho que tem uma morbidez nesse momento, Covid está trazendo uma morbidez insuportável, isso é perigoso para a cabeça das pessoas."

     A fala de Regina Duarte justapõe e opõe vida e morte. Ela ecoa a declaração do presidente da República Jair Bolsonaro, proferida dias antes, ao ser perguntado publicamente sobre o número de mortos por Covid-19 no Brasil: “e daí, não sou coveiro”. No momento em que se evidencia o colapso do sistema funerário em razão do número de mortes em decorrência da infecção por coronavírus e em que as famílias são impedidas de realizar velórios e enterros coletivos por causa das medidas restritivas de isolamento social, a secretária especial de Cultura desqualifica as práticas funerárias como partes da vida social, recusando-se a se referir com deferência às mortes de pessoas importantes do seu setor. A Moraes Moreira, Aldir Blanc, Rubem Fonseca e Flávio Migliaccio, citados na entrevista, devemos acrescentar os nomes da maestrina Naomi Munakata e do artista plástico Daniel Azulay, falecidos anteriormente, assim como os do artista plástico Abraham Palatnik, da atriz Daisy Lúcidi, do músico Ciro Pessoa e dos escritores Sérgio Sant’anna e Luiz Alfredo Garcia-Roza, que faleceram nos dias seguintes.

            Ao final da entrevista, a secretária especial de Cultura Regina Duarte reage a uma mensagem de vídeo em que sua contemporânea das telas Maitê Proença cobrava um posicionamento do governo federal em relação aos profissionais de cultura que perderam trabalhos por causa da pandemia. Tendo rido ironicamente diante de nova menção aos mortos na área da cultura, em especial o compositor Aldir Blanc, Regina Duarte afirma: “vocês estão desenterrando mortos, carregando um cemitério nas costas, vocês devem estar cansados, fiquem leves, bola para frente”. Sua desqualificação do luto político expõe a incapacidade do Estado brasileiro e da sociedade como um todo de criar as condições para que os crimes cometidos por agentes públicos sejam devidamente reconhecidos. Ocorre a propósito do luto político uma intersecção entre a biografia e o acontecimento. O drama pessoal e afetivo da impossibilidade do luto vivido por famílias que não tiveram acesso aos restos mortais de seus entes queridos possui um sentido coletivo, uma significação histórica.

     Os participantes perfilados com os rostos cobertos pela camisa do tricampeonato da seleção brasileira ao som dos nomes dos mortos e desaparecidos políticos no ano de 1970, no vídeo Morte súbita de Jaime Lauriano (2014), é a imagem do sentido coletivo e da significação histórica que Regina Duarte e Jair Bolsonaro tentaram apagar. Tanto a obra de arte quanto o antimonumento, assim como um memorial virtual tão especial quanto o Santinho, com a exposição dos objetos biográficos post mortem, produzem estratégias críticas de expressão dos vínculos com as pessoas ausentes, ou protesto contra a impossibilidade das expressões apropriadas a esses vínculos.

[1] O trabalho omite o nome do estudante Antônio dos Três Reis de Oliveira (1948-1970) por um lapso ocorrido durante a produção. Jaime Lauriano afirma à Associação Cultural Videobrasil que o trabalho menciona 23 pessoas.

morte súbita em 2020

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