Brasil, 13 de setembro de 2020.

 

Escrevo a carta que não deveria existir, pois perder um irmão é uma tragédia incontornável. E não podermos prestar-lhe as últimas homenagens, uma imposição dolorosa. Sinto-me uma Antígona fracassada; o Rei de Tebas venceu! A emergência do momento é uma estranha ilha onde nos isolamos. Irredutíveis e bestiais todas as tentativas de decifração dessa esfinge a nos desafiar.

 

A rua onde moro, ela própria vai escrevendo, pela caligrafia sinuosa da realidade, com suas mãos sombrias a penetrar as casas que sabemos: não estão vazias, mas estáticas. Carros se cruzam nas bifurcações; a fila do correio se alonga; uma senhora rega suas plantas com o medo agarrado na face; outra, conta seu segredo sobre um tempo remoto; há pressa nas pernas que seguem em direção às estações de metrô, aos pontos de ônibus, aos barcos que parecem querer nos levar por um Letes qualquer.

 

E a morte, sempre pontual e indubitável, já se farta no seu comércio de obituários: mais de 130 mil brasileiros que, como o meu irmão, não resistiram ao vírus que assombra o mundo. Certamente, esse número não é uma estatística, mas uma tragédia, acentuada pelo governo genocida que desde o início desmereceu a ciência, desacreditou a verdade, não se pactuou com a vida.

 

A dimensão mítica do silêncio empresta-lhes a homenagem possível: a ausência do amolador de facas, as consoantes mudas, o intervalo que antecede à música e aos equívocos, a algaravia de pássaros no tempo semimorto. Quantos choram como eu! Os arruídos com os quais já tenho intimidade submergem à memória: a recolha do lixo, a serra elétrica do vizinho, o garoto do hip-hop que passa deixando seu rastro com a melodia (en)cantada a desafiar a desordem das coisas, a bola quicando acompanhada pela respiração do cão obediente, a língua primitiva ecoando no labirinto imune à gramática e à ortografia de um universo exigindo outro (com)passo. A sintaxe do caos é a semântica de algo que ainda desconhecemos, mas já nos apequena, humilha e aparta.

 

Às vezes, o vento urra e bate portas – não se deve rejeitar ou negar o saber da natureza e seu ciclo vital.   Eis o novo recado do mundo: Nada é pra já. Fomos pegos desprevenidos, andamos às voltas entre os desvãos e socalcos do Pandemundo.

Nem todos os Lázaros ressuscitam.

 

Marta

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