Queridos e queridas, 


Quando minha mãe morreu, eu tive uma dor lancinante, como se centenas de facas atravessassem as minhas costas, na minha região lombar. Doía tanto no corpo, mas tanto e tão forte que ao final a dor se mostrou amiga, porque enquanto eu me ocupava dela, sofria menos da outra dor, a do nunca mais.
                                                                                                                                                                                                                  O luto é a dor do nunca mais. Nunca mais é um bicho papão, que nos atormenta e assusta, um bloco sólido, escuro, nenhuma flor nasce lá, é um lugar sem luz. Mas a força do amor derruba qualquer bicho papão. Logo eu e minha mãe criamos outros tempos de encontro. Sonho com ela sempre que preciso de alguma orientação, e o melhor dela se apresenta como uma voz firme e sábia dentro de mim. Ela já me fez boas surpresas: em sonhos cozinha minhas comidas prediletas da infância, e me traz o conforto que as vezes só um estômago feliz conhece; outras vezes eu mesma cozinho as delicias que ela me ensinou e sigo a sabedoria de comprar flores e dormir em lençóis limpos para apaziguar as agruras da alma. Isso é ela em mim. E disso nenhuma doença nos priva.
 

Pois então chorem, chorem muito, façam poças salgadas de lágrimas nos tapetes das suas casas. Não se levantem de manhã, cubram as cabeças com os travesseiros para que nenhum respiro, nem o mínimo murmúrio desse mundo cruel, que leva quem a gente ama, cheguem até vocês.  Não acreditem nos que dizem que vai passar, porque passar mesmo, não vai; mas vai se transformar. Amor grande não morre, sempre acha um jeito de se manifestar. Um dia depois do outro depois do outro  e vem um sonho, e um encontro no sonho e uma memória feliz e uma vontade de ouvir música italiana porque ela gostava  ou de fazer aquela viagem que ele programou, e um sopro fresco chega dizendo: não é nunca mais, porque a herança do  amor vive para sempre, nenhum vírus nos rouba a história dos nossos afetos, nenhuma doença triste nos impede de nos expandirmos tanto,  que possamos alcançar o  inatingível . Mesmo que seja nos sonhos. Mesmo que seja na memória.
 

Com muito respeito e amor
 

Elza

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