Sua mensagem e a foto de sua avó ficaram em mim.

Peço aqui licença para falar sobre ela, sobre aquela senhora e o batom. E as unhas feitas, a pulseira, os brincos, o colar, o cabelo bem penteado e partido de lado, a bolsa preta aberta sobre as pernas, o copo com café (ou Coca?) ao lado, em uma cena tão comum, tão banal, que quem tirou a foto parecia acreditar: essa imagem é Sônia pura, purinha! Foi você?

Pois gostaria de falar sobre ela, sobre essa mulher que se enfeitava. Que me pareceu ter sido muito amada e que deve ter também amado bastante. Queria te contar que nela encontrei um pouco de minha avó, que, da mesma forma, gostava de pintar os lábios, de pulseiras e colares. De se mostrar bonita, como se espelhasse o mundo que via: bonita era a vida. Tenho tanta saudade dela. Mas, em algumas noites, assim que fecho os olhos, ainda sinto a mão dela sobre a minha, leve, mas muito presente. Pois é isso que te desejo: o toque da sua avó, a mão dela na sua. Que vocês duas assim, os dedos entrelaçados, bem juntinhas, possam ir subindo, subindo até lá no alto, acima de tudo, acima desse país triste, dessa doença triste que já nos tirou tanto e tantos. E que lá em cima, flutuando, sorrindo, ela vez ou outra te surpreenda com uma gargalhada, uma risada elétrica, um raio em pleno espaço sideral.

Você não perguntará o motivo: para que interrompê-la? Mas rirá também, sem soltar a mão, até que esse som, o som da risada de sua avó, dos lábios pintados em seu maior sorriso, vença toda e qualquer lei da física e ressoe, absoluto, por todo o universo.

 

Com muito carinho, Isabela.

©2020 Santinho.