A Mirian tinha um nome hebraico que eu só ouvi no dia do seu enterro, pronunciado pelo rabino. Um nome que eu achei bonito e fiquei repetindo na minha cabeça. E agora não me lembro qual é. Eu não sei quando ela nasceu. Nem quantos anos ela tinha, mas alguma idade entre 70 e 75. Mas sei que eu a conheci há 26 anos, desses presentes que a gente ganha por meio da pessoa por quem nos apaixonamos. Ganha-se um amor, às vezes uma família, às vezes alguns amigos.

Mirian era essa amiga da família, a pessoa sempre ali. Vai ter pizza? Cadê a Mirian? E ela sempre atendia ao chamado pelo interfone.

Era amiga e vizinha. É lanche da tarde, café, bolo, aniversário? Cadê a Mirian? Casamento, divórcio, promoção no emprego, nascimento, doença, luto? A Mirian sempre lá. Às vezes resistia, não vou, não quero, tô bem aqui, tô jogando, tô vendo filme, mas logo ela aparecia, sorrisão no rosto polonês, um abraço apertado e um elogio. Aos olhos dela estávamos sempre lindos.
 

Vai ser estranho o próximo café sem a Mirian. A pizza, o Natal, os aniversários, o interfone que ela não vai atender, a porta que ela não vai abrir para podermos dizer “eeee, ela veio!”.
 

O melhor que podemos fazer pelos nossos mortos, disse o rabino na tarde ensolarada e quente em que ela foi enterrada, é viver intensamente e seguir os bons exemplos que eles nos deixaram.

Receita simples. E poderosa.
 

Que cada um de nós consiga segui-la. Amém.

©2020 Santinho.