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  • Marília Velano

Aldir Blanc Mendes

VOLTA PRA EU TE DAR O LIVRO DO GOYA!

A tentativa de escrever sobre o luto, a perda e a saudade. Substantivos cujo peso de seus significados se sente multiplicado pelo inumerável - por conta da brutalidade, do inesperado, da injustiça mortal do vírus incurável. São precisamente estes os padecimentos que tornam árduos as tarefas e os gestos de expressão - deles mesmos.

“A vida prejudica a expressão da vida”, já dizia Bernardo Soares. Sempre adorei essa frase, a li centena de vezes, mas apenas agora compreendo a verdade que ela carrega. Da dor (e do amor) que sentimos nunca poderemos contar – não assim, no estado bruto.

E consciente do sofrimento causado pela tentativa de expressar outro sofrimento – a morte injusta de meu pai – sentindo as ranhuras na pele sensível que existe entre as sensações, o pensamento (que, combalido, procura organizar tais sensações na disposição das palavras, para uma compreensão aproximada do real pela alma de quem lê este dorido relato) e a mão em movimento cursivo, frágil diante da responsabilidade de narrar, definitivamente, tudo isso: o inominável. Escolho, para minha despedida (aquela que não tive pois o ritual macabro é todo horror, mas nunca despedida), escrever diretamente para ele. Como se antes de partir ele surgisse para mim, enorme como sempre foi (no tamanho e na bondade), e eu pudesse lhe dizer minhas últimas palavras – aquelas que só pude proferir em pensamentos afogados:

Meu Bidu, Estou te vendo agora, aqui, na entrada do meu quarto, diante da cama onde me encontro sentada e reclinada sobre este caderno e tendo ao lado sua lupa e o seu livro do Goya, que trouxe lá do Museu do Prado. Não chegou a ser completamente seu porque não tive a oportunidade de te entregar em mãos, como fiz sempre questão – te oferecer meu carinho em forma de alguma lembrança de viagem, ouvir você dizer “poxa, que legal, que bacana”, era um momento terno, em todo tempo. No entanto será eternamente seu, porque trouxe como um achado, pois esse certamente você não tinha e é a tua cara. O Goya é a tua cara. Um livro feito de cadernos de desenhos dele, que, para compreendê-los, devem ser vistos como quem lê: possuem uma narrativa própria que se depreende pela ordenação desses cadernos. Ah, como você ia gostar! De tudo que já te dei, esse é o objeto mais bonito, mais fino, que mais representa nossa lealdade mútua – a que sempre tivemos e sempre teremos.

Naquelas horas intermináveis da espera exaustiva – da esperança viva, pois seu coração batia – vinha-me o pavor profundo da possível tragédia e com ele a fraqueza da alma inteira. Eu, que não sei rezar (como desejei saber naqueles momentos!), me pegava de pé na janela do quarto - ou na varanda, ou olhando para o teto como quem vê um céu fechado – e chorava muito, mas muito, Bidu. A possibilidade de te perder, de te sentir arrancado de nós, de repente, foi o horror maior que pressenti, vi e vivi. Foi o medo e a total rendição a ele. Saíam de mim pedidos às arvores, ao barulho da cachoeira que tem aqui do lado de casa, entrecortados por soluços, para que toda a força da natureza – que você tanto saldou nas obras que fez – entrassem em seu corpo naquele momento e te insuflasse vida, te salvasse e te trouxesse de volta para nós. Eram grunhidos que imploravam salvação, a salvação do amor das nossas vidas. Eram esgares e gestos de desespero, busca surrada por aplacar o agudo daquilo que dói latejante, ininterruptamente. Me sentava como quem se rendia e, ainda olhando para o verde indiferente lá fora, conversava contigo:

“Bidu, meu Biduzinho, a gente tinha combinado do Caju (meu cachorro) passar uma semana com você. Você que pediu, então volta!”

“Bidu, não vai não, você tem muito o que aturar a gente ainda, não foge não, não sabemos viver sem você. Não vai ser desse jeito não, pode tratar de voltar!” “Pai, o Joan está esperando para te contar pessoalmente que me pediu em casamento. Com certeza você vai ficar todo feliz, quero ouvir sua risada, volta para a gente te contar!”

“Ah, Biduzinho, preciso te dar o livro do Goya, deixei pra fazer a dedicatória no dia da entrega, então quando você estava quase saindo do hospital escrevi e entreguei pra minha mãe te levar. Disse ali que o livro estava na sua cama, esperando você chegar. Então, por favor, VOLTA PRA EU TE DAR O LIVRO DO GOYA!”

Hoje o livro voltou pra mim. Atrás da dedicatória de antes, escrevi a lápis que ele sempre será teu. A Mary me deu uma das suas lupas e com ela posso ver melhor os desenhos desse artista de alma sofrida como a tua. Sofrida por sentir todas as dores de todas as gentes – toda a angustia universal, que te abatia e te fortalecia em um só tempo.

Ainda escuto a tua voz, revivo o abraço em que encostava minha cabeça em seu peito (único e secreto momento em que me sentia amparada, protegida), as conversas sobre os livros e os conselhos para a vida, a compreensão de meus sofrimentos, o seu olhar que desfazia a condenação que me imputavam, a valorização de mim mesma quando eu já não me acreditava. Tudo isso nos unia numa relação que ninguém poderia desfazer, ainda que me afastassem de casa (nos falávamos quase todo dia, só você sabia dos meus mais profundos dilemas e eu dos teus – nunca brigamos, estávamos sempre um do lado do outro, na defesa, ainda que estivéssemos errados). Você contava todo feliz que a Mary vivia dizendo que nos uníamos contra ela. Ríamos do “contra”, que nunca passou apenas do entender um ao outro, o que nos trazia o sentimento dos comparsas. Sempre compreendi teu ser sensível resguardado sob teu jeito escondido. Dos livros – ou melhor, da tua biblioteca-labirinto borgeana – você fazia uma fortaleza para o proteger do mundo lá fora, do mundo dos homens ocos, desse mundo que hoje traz a morte pelo ar, traz a destruição das vidas, das artes que estimávamos tanto, dos sentimentos-entranhas que só a gente sabia reconhecer e valorar. Mesmo assim esse mundo que odiávamos em segredo (quando não o era sempre nos feriam) te arrancou da gente, te varreu de mim. Ainda bem que no teu último aniversário pude te agradecer por tudo, pude dizer o quanto me orgulhava te chamar de pai, de poder ser tua filha e que se assim não fosse talvez não estivesse viva. Por essa franqueza toda, sem cerveja, comoção, sem acontecimento nenhum e por telefone você não esperava. Senti sua comoção e você a minha. Jurei que no próximo aniversário teu furaria todas as barreiras familiares, qualquer humor reativo que me afastava sempre e estaria contigo.

Agora eu fico aqui viva e você não. Agora estou como aquela menina insegura e chorona que você cuidou. Agora estou sem meu amparo, meu esteio, o único que acreditou sempre em mim, meu único fã. Ah, meu Bidu, que falta você faz! Tenho ainda muito pra te dizer, o que é bom, pois estaremos sempre a conversar, coisas pra contar e livros pra te narrar – como esse do Goya. Façamos um acordo: a gente nunca vai se deixar.

Te amo – como diria Maiakovski – fiel e verdadeiramente.

Um beijo enorme da tua filha leitora. .











Nascido em 2 de setembro de 1946

Faleceu em 4 de maio de 2020



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©2020 Santinho.