“E lá se foi seu Raimundo fazer a sua brincadeira no céu”. Apesar da tristeza pela sua morte, aos 86 anos, foi assim que os conterrâneos do Crato (CE), na região do Cariri, viram a partida do músico Raimundo José da Silva, em 15 de outubro, vítima da Covid-19.

Era o último dos integrantes da segunda formação da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, um dos grupos mais importantes da tradição artística nordestina, com dois séculos de existência. Reconhecido como Mestre da Cultura pelo governo cearense, Raimundo era uma festa em forma de gente.

Descendente dos índios Kariris, o brincante começou a animar o mundo ainda aos seis anos de idade, quando tocou, pela primeira vez, pife (pífaro) e zabumba. De tertúlias caseiras, eventos e animações de feiras, a banda familiar dos Aniceto foi parar na Europa, em uma excursão em 2004. Foi um sucesso por várias cidades de Portugal e Espanha.

Seu Raimundo achou tudo muito incrível na turnê europeia. Ao voltar ao Cariri, porém, não teve dúvidas: “Tudo lá é muito bonito, mas eu prefiro o bairro Batateira, onde a gente mora”, disse ao Diário do Nordeste.

E lá se foi seu Raimundo Aniceto, mas deixa um legado e tanto para o Cariri, o Ceará, o Nordeste, o Brasil. Até a própria casa virou museu orgânico dos seus rastros por esse mundo. A memória sonora, dos instrumentos e da sua risada, é trilha para cada habitante do Crato.

Xico Sá

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